
Os primeiros automóveis surgidos no Brasil circulavam certamente pelas grandes cidades, só indo depois de algum tempo se espalharem pelas zonas rurais, quando nessas foram surgindo estradas mais propicias à circulação desses veículos. Assim sendo, quanto maior fosse o isolamento de um morador do campo e quanto mais distante ficasse das cidades grandes, maior seria a demora em ter contato com essas máquinas que muitas vezes foram confundidas com monstros ou Demônios. A história que vem a seguir serve bem para ilustrar essa situação e demonstrar a cara de espanto de um homem simples diante da novidade que era para si o contato com um automóvel.
Certa noite de lua um caçador munido de sua espingardada velha, e seu cachorro magricela, mas eficiente, saem em mais uma das investidas aventurosas do sertão, ou seja, uma caçada de peba, que na verdade é uma caçada de tudo, pois, tudo que passar pela mira da espingarda ou pelo faro do cachorro, e que possa servir de um assado, corre grande perigo, ou de levar uma saraivada de chumbos disparados pela socadeira ou de ser agarrado pelas dentadas do cão.
Nesta noite o mar parecia não estar para peixe, ou melhor o mato não estava para caça. Tendo já o caçador percorrido longas distancia sem sucesso algum, se encontrava já cansado e desorientado pelos assobios da caipora que atordoa aos caçadores que não lhe dão fumo em troca de boas caçadas.
Perdidos no meio da mata, caçador e cão rodam horas e já quase madrugada conseguem atinar para um rumo que os levaria a uma estrada, bem longe de sua casa é verdade, mas na qual poderiam finalmente se encontrar, pois lembra o caçador que por aquelas bandas morava um compadre seu.
Mal sai do mato alcançando a estrada ainda meio aturdido, um automóvel com os faróis acesos lhe sega as vistas fazendo-o cair no chão. O automóvel que passava pela estrada segue seu caminho sem parar e o pobre caçador acreditando se tratar de um monstro enviado pela caipora e que o mesmo fugira o vê-lo apossado da velha espingarda e acompanhado do seu cão, se enche de coragem e passa a seguir o carro correndo atrás deste engolindo fumaça e comendo poeira.
Tamanha foi a carreira de nosso herói e de seu cão que ainda conseguem acompanhar ao carro por bom espaço de tempo, porém sem sucesso, pois a cada disparo da velha espingarda a mesma batia catolé e nunca o alvo era atingido. Tanto correram que cansados já não conseguiam manter o ritmo dos passos inicias, mas a distancia percorrida já os fizera chegar bem próximo da casa do compadre, para onde resolve se encaminhar para descansar e contar o acontecido.
Chegando na casa do compadre, encontra este já acordado, iniciando os trabalhos do dia, que no sertão se iniciam ainda com escuro, o mesmo que vira o automóvel passar e já estava acostumado a vê-lo, uma vez que naquela estrada já começavam a circular veículos rumo as feiras de cidades da região vem atendê-lo. É quando o caçador sem deixar espaço para qualquer manifestação do compadre dispara o brado assustado:
-Compadre você viu aquele bicho dos oi de fogo.
O compadre rindo responde:
Mas que bicho dos oi de fogo nada compadre, aquilo era um automóvel.
O caçador sem fazer a menor idéia do que se tratava um automóvel e sem entender aquela palavra que para ele era nova, bastante zangado com os risos do seu compadre devolve injuriado:
- oitos e noves que nada compadre. Aquilo era um bicho dos oi de fogo.

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